• Larissa Dias

Cassandra - a intuição


Cassandra diante da destruição de Tróia

Ah, Eurípedes, o grande poeta grego que escreveu as mais belas tragédias. Graças a ele foi possível popularizar a história de Cassandra, uma personagem intrigante da mitologia grega e a quem a psicologia profunda estuda há bastante tempo.


Cassandra foi uma mulher lindíssima, filha da rainha Hécuba e do rei Príamo de Tróia. Era tão linda que o Deus do Sol Apolo se apaixonou por ela, prometendo o dom da profecia caso ela se entregasse para ele. Ele lhe deu o dom profético, mas como ela não cedeu às investidas do deus, este lhe cuspiu na boca e lhe condenou a saber do futuro mas que ninguém acreditaria em nenhuma profecia que lhe saísse da boca.


Assim, Cassandra previu muitos desastres como a Guerra de Tróia e até a tragédia que desencadearia na sua própria morte, mas ninguém acreditou nela.


Utilizando o mito em nossa vida, a psicologia trouxe o complexo de Cassandra, cujo termo se refere a pessoas que, embora estejam dizendo a verdade, são desacreditadas. Além disto, o termo traz à tona a descrença no feminino, considerado como não confiável (SCHAPIRA, 2018).


Todos já devem ter ouvido o termo "Intuição feminina" não é? A intuição é algo que homens e mulheres tem mas nos dias de hoje muitas vezes é tida como "não confiável". Ligada ao feminino, ela aparece como algo fútil, frívolo. Jung não considerava a intuição algo fútil, inclusive a considerava um dos quatro tipos psicológicos da humanidade (PENSAMENTO, SENTIMENTO, SENSAÇÃO e INTUIÇÃO).


Embora seja algo difícil de explicar porque não é palpável, tratando-se de algo como um pressentimento, a intuição é real e todos nós a temos, uns de forma mais desenvolvida e outros nem tanto. Mas como assim todos nós temos?


Jung (1991) acreditava que todos possuíamos certo percentual de cada um dos tipos, incluindo a intuição. Cada tipo (pensamento, sentimento, sensação e intuição) habitava uma parte de nós, alguns tipos de modo menos desenvolvido que outros, sendo essa a nossa função inferior.


Embora falar de intuição possa parecer algo estranho, ela existe na nossa vida e aparece no nosso dia-a-dia. Povos primitivos a usavam de forma mais constante e assim conseguiam se livrar dos perigos que a vida daquela época reservava. Nos dias de hoje, podemos intuir por exemplo a sensação de que seremos assaltados, como se uma situação extrema ativasse essa função que muita gente não usa naturalmente.


Pessoas intuitivas acabam se destacando em áreas como marketing, vendas, corretagem da bolsa de valores, moda etc. São áreas onde quem tem uma percepção além do concreto consegue se sair muito bem.


Existem pessoas que hoje em dia ainda conseguem acessar naturalmente a intuição, mas o mundo atual ainda não valoriza esse lado que prevê, mas que não consegue ser explicado de forma objetiva. O subjetivo é algo que assusta a maioria das pessoas e por este motivo a intuição, como algo subjetivo, é tida como "persona non grata".


O maior desafio das Cassandras de hoje em dia é se afastar da sombra para ir em direção ao fortalecimento do seu próprio Ego, de modo que o benefício de prever o futuro seja algo que lhes ajude a agir de acordo com o propósito maior do Self.


Mas para se afastar desta sombra é necessário ir em direção à Apolo, o deus do sol, da luz e da consciência. Acreditar em si mesmo se torna fundamental, tornar luminosa e consciente essa capacidade de prever, para que o Apolo que existe dentro de cada um não amaldiçoe com a sombra a Cassandra a quem ele mesmo deu o poder.


JUNG, C. G. Tipos Psicológicos. 7. ed. Petrópolis: Vozes, 1991


SCHAPIRA, L. L. O Complexo de Cassandra. Petrópolis: Vozes, 2018




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