• Larissa Dias

Nossos Ídolos...


Com a aproximação entre fãs e ídolos, ocasionada pelo período da pandemia, algumas coisas começaram a me chamar a atenção nas mídias sociais, e uma delas foi o tema da Idolatria.


Em diversas publicações, esse tema está mais relacionado à idolatria religiosa, uma discussão interessante do ponto de vista teológico, mas, neste post quero falar sobre um lado que atua com nossas questões psíquicas: o quanto observar, adorar uma pessoa, reflete as nossas próprias características internas?

Adorar alguém, seu trabalho, sua forma de expressão, acompanhar e seguir essa pessoa, é um trabalho árduo e exigente. Quando uma pessoa tem todo esse trabalho, é porque, provavelmente, está vendo algo interno dela sendo refletido no outro.


Esse fenômeno é chamado de projeção, por Jung (2013). O assunto da projeção é longo, e abre margem para muita discussão, que não caberá aqui neste momento, mas, basicamente, podemos dizer que a projeção é um fenômeno que ocorre quando identificamos no outro algo que para nós está ainda de forma inconsciente, ou seja, não temos consciência de que aquilo, de alguma forma, é nosso, pois não temos acesso a esse conteúdo interno.


Falando do mundo artístico, podemos projetar conteúdos internos mais positivos, como características de genialidade, criatividade, capacidade de realização, excentrismos atraentes para o público, perfeccionismo, capacidades performáticas, etc.


No entanto, também podemos projetar lados mais sombrios, como a necessidade de uma adoração excessiva e constante, ações de desviar a atenção dos outros artistas para nós, o culto à vaidade a qualquer custo, etc.


Além disso, é importante observar que, no mundo artístico, existem formas e formas com as quais os artistas lidam com essa questão de serem ídolos. Alguns consideram como algo fundamental. Outros, não dão tanto valor, mas aproveitam o momento da adoração para divulgar o trabalho, embora não se apeguem a essa necessidade.


Na mitologia, existe uma divindade, que aparece na Torá, chamada Bilquis, sobre quem já escrevi no post sobre a série American Gods. Ela também era conhecida como a Rainha de Sabá, e seu poder estava em ser adorada. Quanto mais adorada ela era, mais poderosa ficava. Na série, ela havia se tornado uma devoradora dos homens que a adoravam.


Em partes, quando adoramos os ídolos de forma exagerada, acabamos não trazendo para nós aquelas características tão positivas, fazendo com que nossos projetos estacionem e não sejam concretizados, pelo fato da nossa energia estar completamente direcionada para o outro.


Além de Bilquis, diversas divindades de outras mitologias também tinham essa temática da adoração. As orações dos humanos davam poder a elas. A adoração em algo maior, como uma divindade, está direcionada para algo arquetípico, que tem um potencial praticamente ilimitado. Porém, quando essa adoração é direcionada a outro ser humano, de carne e osso, como nós, acaba-se gerando uma certa “cerca limitante", uma vez que nosso potencial evolutivo depende da soma daquilo que nosso mundo interno já tem + aquilo que apreendemos do mundo externo.


Se a psique se voltar apenas para uma pessoa, toda a energia psíquica do adorador é direcionada para ela. Aquilo vai alimentar e “encher” o ídolo, e vai afagar seu Ego artístico. Mas, dependendo de como isso for feito, essa relação pode virar uma relação tóxica e vampiresca, uma vez que o adorador não consegue produzir, mas apenas projetar sua produção no trabalho do outro.


Eu amo o Stephen King! Desde pequena leio os livros dele e me encanto com sua narrativa emocionante e aterrorizante. Quando eu tinha uns 12 anos, comecei a escrever histórias de terror, muito inspiradas pelos livros dele, porém, eu também ouvia Raul Seixas enquanto escrevia. Então, no meio da história, eu achava que faltava alguma coisa mais profunda, e abria a Bíblia, procurando por alguma outra inspiração.


Deste modo, me parece que a diversidade é um caminho que pode ser muito útil para irmos de encontro com aquilo que realmente é nosso, de modo a atingirmos a fonte original dentro de nós, para, aí sim, liberar todo nosso potencial criativo. Misturar tudo na nossa “panela”, como diria o sábio Raul Seixas, e assim gerar alimento para o mundo!


Como essa é uma discussão muito complexa, deixo aberta aqui essa reflexão, para todos que têm um ídolo. Afinal, Ídolos saudáveis nos alimentam, Ídolos tóxicos se alimentam de nós!



REFERÊNCIAS:


JUNG, Carl Gustav. Tipos psicológicos. 7a Ed. Petrópolis: Vozes, 2013.

ROHDEN, Huberto. Ídolos ou Ideal?: O pensamento avulso sobre Deus, o Homem e o Universo. São Paulo: Martin Claret, 1989.

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