• Larissa Dias

Os Aspectos Dionisíacos da Vida em Sociedade

Atualizado: 25 de Out de 2019


Baco - Caravaggio

RESUMO

Este artigo procura analisar os aspectos do deus Dionísio, como deus do vinho, do teatro e da fertilidade no âmbito da moral social moderna e de acordo com cada aspecto deste deus.


Palavras-chave: Dionísio. Sociedade. Deus.


INTRODUÇÃO


A mitologia nos apresentou um dos deuses de maior aceitação interna e de maior rejeição externa em uma sociedade: Dionísio.

O mito do deus Dionísio, descrito em “As Bacas”, tragédia clássica de Eurípedes, nos apresenta um universo de grande delírio literário. O mito conta a história de um deus nascido do rei dos deuses do Olimpo, Zeus, e de Sêmele, uma mortal.

Considerado como uma divindade do vinho, do teatro e da fertilidade, o mito de Dionísio se propagou pelo mundo onde foi tema de diversos autores, e suas características foram exaustivamente abordadas em diversas publicações modernas e clássicas, incluindo influências nas obras de Nietzsche.

Mas quais fatores levaram este deus, Dionísio, a ser tão cultuado na sociedade antiga e seu mito difundido na sociedade atual, despertando o interesse neste deus em diversas ordens sociais? Abordaremos neste artigo este e outros aspectos do dionisismo na sociedade.


1 - Abordagem Poética

Quem estuda apaixonadamente algo percebe como os textos, por mais extensos e ás vezes até exaustivos, parecem-nos poesia quando nosso interesse rege uma ordem deslumbrante ao nosso conhecimento. Olhando por este ângulo, a melhor forma de abordar o mito dionisíaco é por meio de uma análise das principais características deste deus, utilizando poemas elaborados especialmente para este artigo.

Os poemas serão divididos em três partes e após cada parte seguirá uma análise da influência do aspecto em questão dentro de um contexto social.


1.1 - Aspecto 1 – Exaltação ao Vinho


Ó vinho doce e amargo,

Ó cachoeira purpúrea em fonte rosada

Minha aberta boca a ti trago,

Em uma audaciosa sede desvelada.


E se a ti corro nesta hora

É porque preciso de seu líquido perfeito

Como tu também precisasses outrora,

Dos meus pés de onde fostes feito.


Embriaga-me com teu doce sabor

E leva-me a tão sonhada loucura

Se uma pobre mulher te pede com ardor

Para se tornar a mais feliz das criaturas

E se humanos, coragem não têm neste instante

De serem verdadeiros em palavras

Que este púrpuro vinho constante

Faça surgir as verdades reveladas.


O homem não tem coragem para ser

Porque os costumes lhe impedem de alçar vôo distante

Mas o nado neste rio do saber,

Que é tão parecido com nosso próprio sangue

Faz-nos perceber como é bom ser “real”

E por mais que a sociedade deixe de sorrir

E franza o cenho esta idosa moral

Não poderão ao teu comando, me impedir.


Neste primeiro aspecto de Dionísio, como deus do vinho, salientamos Dionísio como deus dos excessos e como um deus ambivalente, assim como o próprio elemento em questão, o vinho.

Especialistas médicos admitem que o consumo moderado do vinho pode fazer bem a saúde por reduzir a possibilidade de ocorrência de doenças cardiovasculares. Mas, conforme está descrito, trata-se do consumo moderado. O vinho, quando em excesso, pode causar danos cerebrais, ao fígado e alcoolismo. O fato é que o vinho possui aspectos positivos e negativos que devem ser observados.

Os artistas, como músicos, poetas e pintores, costumam apreciar o uso do vinho para que este transporte-os a um mundo onde suas sensações estejam mais afloradas, quando fica mais fácil se inspirar para a arte.

A sensação do relaxamento do vinho desvia nossa atenção da rotina e assim é possível um contato maior e mais intenso com nosso intelecto, onde a demonstração mais típica é chamada de “inspiração”.

No tocante à sociedade, o vinho é um elemento bem aceito por conta do seu benefício à saúde e do seu glamour. Beber com os amigos ajuda a descontrair, e quando a bebida em questão é o vinho, o costume social remete a sofisticação.

Claro que os excessos causam graves danos, como a embriaguez, que pode prejudicar o embriagado pela perda da noção de espaço e, às vezes, de respeito.

O culto dionisíaco é descrito por Eurípedes como uma exaltação ao deus onde sua presença leva ao êxtase. A sensação de loucura das bacantes causada pelo poder do deus é comparável à “abertura à inspiração” causada pelo efeito do álcool aos artistas.

O dionisismo possui aspectos da realidade que podem ser bem entendidos como a realidade individual de cada ser inserido em um coletivo, pois cada aspecto da vida em sociedade gera uma característica que na cultura grega, era explicada como deus. O vinho neste caso vem a salientar esta realidade individual. Assim, cada deus de um determinado panteão possui a polaridade do aspecto que lhe dá vida.


1.2 - Aspecto 2 – Exaltação ao Teatro


Ah, o teatro, este palco carnal

Onde se encenam com as próprias vidas

O bem e o mal

Entre tão doces intrigas


E o amor, protagonista eleito

Que de tanto atuar se mostra real

E invade do expectador, o peito

Explodindo em intenso carnaval.


São tantas máscaras a representar

Que o ator se confunde nesta trama

Onde os intocáveis se põem apenas a olhar

Sem viver, de fato, o poder do drama.


A representação do símbolo da realidade

Fere e escandaliza a massa

Que, independe da classe social e idade

Não percebe o que se passa.


Dionísio, inspirador do artista

E da arte de representar

Deus do teatro e de tudo o que mais exista

Na válvula propulsora do sonhar.

Não há máscaras, tudo é confundido:

Ator, arte, expectador e personagem

Não se sabe o que é vida, morte ou castigo

Tudo se mistura na mesma imagem.


A ti, deus adorado e querido

Irei levantar honras da festa teatral

Teu semblante feroz te faz o melhor amigo

Do amargo e do doce, do bem e do mal.

Representação da verdade, hei de te exaltar

E que meu canto ecoe dentro e fora de mim

Poeta das árvores, ator do luar

E que seu espetáculo jamais tenha fim!


As atitudes “imorais” de alguns artistas escandalizam a sociedade, que imediatamente aponta seu dedo de juiz exemplar. Mas nossas críticas realmente teriam fundamento? São reais mesmo? Já paramos para pensar de outro modo, tentando enxergar a origem desta forma de julgamento? Será que a inveja das “pessoas comuns” não as faz querer viver a realidade dos artistas e transforma em loucura a mais fiel das realidades?

Estas perguntas, infelizmente, não são frequentemente feitas por nós e isto acaba excluindo de nossa sociedade o modo alternativo de vida como um meio de ser. E que entendamos aqui “alternativo” como algo fora do padrão da maioria das pessoas de um determinado espaço e tempo.

Dionísio aqui é colocado como deus das representações teatrais. Cremos que o “realismo”, a forma vívida e intensa que existe quando se representa uma personagem, faz desta atitude do artista algo dionisíaco.

Não só no teatro esta forma aparece, podemos considerá-la em qualquer empreitada em que a intensidade possa ser um fator determinante, batendo de frente com a razão, e às vezes, a ultrapassando.

Normalmente isto é muito perigoso para o homem comum. Este pretende viver em harmonia com a sociedade, sem nenhum problema para que possa ser aceito no ambiente coletivo e longe do caos. Mas a verdade coletiva e moral que tenta ir contra o caos não é, ás vezes, nem sombra de nossas verdades individuais.

O teatro teve sua origem no século VI a.C., na Grécia, surgindo das festas dionisíacas realizadas em homenagem ao deus Dionísio, deus do vinho, do teatro e da fertilidade. Essas festas, que eram rituais sagrados, procissões e recitais que duravam dias seguidos, aconteciam uma vez por ano na primavera, períodos em que era feito o vinho naquela região. Um dia um participante decidiu representar o deus Dionísio com uma máscara, o que causou espanto, pois ele, simples mortal, estava representando um deus.

O espanto dos gregos estava na representação de uma divindade por um mortal. E o que espanta a sociedade atual é a nossa tentativa de sermos deuses. Acabamos nos esquecendo de sermos mortais, seres naturais que possuem verdades individuais, antes da perfeição a que tentamos chegar neste verdadeiro “drama” da sociedade moderna.

A existência humana é teatral e Dionísio, como deus do teatro, deveria ser regente desta parte da vida.


1.3 – Aspecto 3 – Exaltação a fertilidade


Não hei de me contentar com apenas uma flor

Se eu conheço campos silvestres onde

Amarei todas as flores sem pudor

Porque não há verdade sob o capuz de um monge.


Como poderia eu, nesta voluptuosidade

Esconder-me atrás de um falso pudor

Se não há graça na unidade

Que reduz a singelo um aterrador amor?


Meu canto é para muitos, eterno

Um só o ouvirá abafado e triste

Minha dança não tem destino certo

Dançarei com tudo o que existe

A opressão não poderá me calar

Pois a inveja é fruto desta opressão

Esta falsa mulher que atira pudor no ar

A mais libertina, porém no coração.


Mentir a si mesmo leva a mentir aos demais

Ou a eterna infelicidade e sofrimento

Se nos braços de apenas um rapaz

Inicia-se seu doce tormento.

Se os amantes buscam na branca lua

Permissão para os desejos contidos e guardados

É porque a verdade, quando nua,

Mostra seu impressionante corpo sagrado.


Ó hipocrisia mentirosa e infeliz!

Que faz parte de um culto da sociedade da Moral

Que em uma gaiola se torna perdiz

Almejando o espaço sideral.

Meu olhar é transparente e brancas são minhas mãos

Não há mentira e não há pecado.

A verdade se apresenta como um garanhão

Que pode em veloz galope não nos trazer agrado.


Dionísio como deus da fertilidade é ligado à deusa grega Deméter, deusa das terras férteis. Mas a característica de seu culto que possui mais relação com este aspecto é o seu conteúdo orgiástico, que pode ser visto como a perda do indivíduo em um sujeito coletivo.

A questão da orgia dentro da sociedade precisa ser analisada sob uma ótica livre de tabus. O sentimento que lhe dá origem, o sentimento dionisíaco, existe independente do tempo, do espaço, das condições políticas, financeiras e até mesmo religiosas. Quando existem tabus, o que ocorre é a negação deste sentimento e, consequentemente, da nossa existência, através das regras de uma moral estabelecida.

Pode ser complicado pensar no sentimento dionisíaco no aspecto orgiástico se pensarmos em uma sociedade. De início, podemos pensar de uma forma mais simplificada: o relacionamento em um casal (duas pessoas) é medido por padrões morais coletivos que muitas vezes se limitam a não satisfazer nenhuma das duas partes, mas sim a uma sociedade casta. No meio deste jogo social, a traição pode se tornar uma saída, não muito correta para os padrões aceitos, mas existente, pois o homem casto não desonra sua esposa com seus “verdadeiros desejos”, mas sim, a trai com a necessária prostituta alternativa. A mulher casta também pode apelar para a traição, se não encontrar meios de tornar do conhecimento do parceiro seus verdadeiros desejos sexuais.

A temática da traição é bem mais profunda, mas o que nos interessa aqui é observar que os padrões morais de uma sociedade nem sempre tendem a ir contra o caos. Talvez possa ir contra a um caos explícito, mas mantém a condição de um caos velado.

Se os padrões morais de uma sociedade determinam o sexo como algo ruim e não como algo necessário à vida humana, acaba-se criando um “tabu” que faz com que cada vez se estenda uma ponte entre um casal que teme aparecer como “imoral” na sociedade onde vive. E o pior de tudo é que estes pais repassam suas incertezas para seus filhos, que continuam a viver de acordo com estes padrões.

Neste aspecto, o dionisismo na sociedade pode aparecer como sentimento coletivo, mas muito mal administrado quando no tocante a assuntos que são “perigosos”. O medo destes assuntos só existe pela crença de que sabemos tudo sobre eles. E se o medo é algo que existe apenas no desconhecido, logo não conhecemos o sentimento orgiástico em sua plenitude.


CONCLUSÃO


O dionisismo está à frente de seu tempo e pode até sempre estar, por mais moderno que o mundo possa ser, pois a verdade ainda não é um fator essencial no mundo.

O aspecto divino dentro de uma sociedade é um conjunto de relações que regem a vida das pessoasm, que inseridas em determinado contexto social, precisam explicar a si mesmas os padrões pelos quais vive.

Como sabiamente disse Mafessoli (1994), não se pode concluir um assunto como este, onde o estudo dos aspectos de Dionísio só vem a acrescentar conhecimento da vida em sociedade. Mas como a verdade, que aqui foi vista como característica intensa do dionisismo, às vezes se coloca contra a moral, a conclusão que tiramos é que o interesse que leva o mundo por determinado caminho nem sempre favorece a maioria de uma população aflita, que inserida em um contexto social, não sabe fazer nada além do que “o que manda o protocolo”.

Hoje em dia se torna extremamente difícil a intensidade do sentimento dionisíaco e quando ele existe deve estar “escondido”. Na antiguidade, o dionisismo também era marginalizado. Apenas em alguns momentos seu culto se tornou necessário, mas mesmo assim suas formas foram muito modificadas. O que nos interessa como seres humanos, é entender como desbravar o deus Dionísio em nós, para que a verdade possa agir em nós mesmos e nos reger ao “caminho da felicidade”.


REFERÊNCIAS

BENCHIMOL, Márcio. Apolo e Dionísio Arte, filosofia e crítica da cultura no primeiro Nietzsche. São Paulo: Editora Annablume: FAPESP, 2003.

DA ROSA, Edvanda Bonavina [et. al.]. Hinos Homéricos; edição e oganização Wilson Alves Ribeiro, Jr. São Paulo: Editora UNESP, 2010.

EURÍPEDES. Bacas – O mito de Dionísio – Edição Bilíngüe. Estudo e Tradução Jaa Torrano. São Paulo: Editora Hucitec, 1995.

MAFFESOLI, Michel. A sombra de Dionísio – Contribuição a uma sociologia da orgia. Tradução Rogério de Almeida – 2ª Ed. São Paulo: Editora Zouk, 1994.

NIETZCHE, Friedrich. O Anticristo: Maldição ao Cristianismo: Ditirambos de Dionísio. Tradução, notas e posfácio Paulo César de Souza. São Paulo: Companhia das Letras, 2007.

TRABULSI, José Antônio Dabdab. Dionisismo, Poder e Sociedade na Grécia até o fim da época clássica. Belo Horizonte: Editora UFMG, 2004.

WILLIS, Roy. Mitologias. Tradução de Thaís Costa e Luiz Roberto Mendes Gonçalves. São Paulo: Publifolha, 2007.

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