• Larissa Dias

Sombra e Persona na Vocação

Atualizado: 18 de Out de 2019

O tema da vocação na meia idade pode ser um tema complexo de ser trabalhado. Isso porque existe um número muito maior de teorias existentes sobre a vocação focadas na fase da adolescência do que as teorias focadas na idade adulta.


Phenomeno - Remédios Varó

Até pouco tempo, não haviam muitos trabalhos nesta área e isso dificultava o surgimento desta problemática para a área de pesquisa. Diversos autores que escreveram sobre a temática da vocação na meia idade tiveram na própria vida essa questão da mudança e por este motivo decidiram compartilhar suas experiências e ajudar outras pessoas na mesma situação.


A vocação é algo tão importante e isso independe da idade que se realiza esse questionamento.


Eu uso o olhar da psicologia analítica. Nela Jung trabalhou com o conceito de individuação, que é um processo que ocorre em outras fases da vida, mas que costuma ganhar mais força na meia idade. Tornar-se único é o objetivo da individuação, assim como o objetivo da vocação é compreender o que te faz ser único para o mundo.


É possível, e muitas vezes necessário, realizar uma segunda escolha profissional na metanóia (metade da vida). Esse não é um objetivo fácil de ser alcançado e pode se mostrar bem mais trabalhoso do que na fase da adolescência, principalmente porque a motivação para isso agora é outra. Antes, era preciso atender aos desejos do Ego, mas na meia idade, os desejos a serem atendidos são os do Self.


Assim, a energia do arquétipo do herói surge novamente nesta fase, pois essa energia vem sempre que existe uma fase importante de mudanças.


Tudo porque existe uma mudança significativa de ponto de vista. Quem vai em busca agora não é mais o Ego, mas o Self, que começa a enviar suas mensagens por meio da sombra.


A sombra, que é a parte escura, esquecida e renegada da nossa psique, surge para cobrar tudo o que o Self deseja, mas que o Ego não realizou. Muitas vezes isso ocorre por conta da relação que o Ego mantém com a persona, que é a máscara que usamos para a sociedade. Essa relação pode gerar uma tal identificação que o Ego começa a acreditar que apenas aquela persona criada é verdadeira.


Por diferentes situações de vida, pode-se tentar agradar a família, os amigos ou a sociedade com uma profissão valorizada, e assim usa-se da persona para atuar o tempo todo. Mas a persona deveria servir como proteção e não como disfarce. Fazendo isso por muito tempo, essa pessoa acaba por identificar-se com essa persona, e pode ser que não perceba o quanto de si está sendo jogado fora.


Diante disso, a sombra vem cobrar a parte da vida que cabe ao Self e mostrar que na meia idade a psique do ser humano tem uma tendência natural a unir os opostos dentro de si para tornar-se um ser completo.


Antes disto se tornar consciente, está ocorrendo um movimento nas profundezas da psique, no qual cresce a sombra. E quando, na metanóia, toda a estrutura parece começar a desabar e a pessoa acha que está velha demais para começar novamente, a sombra surge e toma partido na discussão de quem é você.


A persona passa a ser identificada e separada, e com isso é possível deixar que os aspectos sombrios venham nutrir nosso entendimento sobre tudo na vida, principalmente sobre a vocação.


Deste modo, o ideal é que não haja uma guerra no Ego para saber se mantém apenas os aspectos da persona ou se deixa que os conteúdos sombrios tenham lugar; o ideal é que exista uma colaboração. A persona não sai de cena, mas muda com a influência dos aspectos sombrios, tornando-se uma persona mais positiva por estar de acordo com o Self.


Durante essa integração, acaba-se por desnudar a psique e esse pode ser o momento de descoberta vocacional. Agora é possível usar a persona criada para seguir adiante no mundo em busca de cumprir o verdadeiro papel do destino ou do daimon.


Afinal, existe todo um sentido na busca desta compensação interna, pois até a metade da vida procura-se trabalhar muito as questões conscientes, mas na segunda metade da vida, conforme já mencionado, aquilo que estava inconsciente surge para cumprir a individuação, para tornar o ser humano completo.


Embora a metanóia seja uma fase onde o ser humano tem uma responsabilidade financeira grande consigo mesmo e às vezes com toda família, é também a fase que garante a coragem de buscar seu verdadeiro caminho sem se importar com o que a sociedade vai dizer. Nesta fase, o auge da vida passou e agora caminhamos em direção ao seu fim, e por isso precisamos mais do que nunca viver uma vida bem vivida. Nosso Self não nos deixaria em paz se seguíssemos o contrário.


Pode parecer cruel ter que começar novamente a buscar uma nova vocação na meia idade, mas não se começa do zero, pois existe já um longo caminho percorrido. O que conta agora é buscar a felicidade que existe de cumprir seu próprio destino, como os mitos do mundo todo nos ensinam com suas histórias heroicas.


Para finalizar, devemos pensar na imagem da árvore cósmica da mitologia nórdica, a Yggdrasil. Nela, o tronco é responsável por fazer a ligação do Ego com o Self, sendo que do Self vem as nossas raízes sombrias, mas que alimentam toda a estrutura, enquanto ao Ego estão conectadas as personas da casca que representam a imagem do ser para o mundo. Porém, a árvore só estará completa quando todas as partes estiverem juntas e daí sim é possível saber o que ela é: se será uma macieira do bem e do mal ou se será uma doadora de um fruto do carvalho.


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